Alfredo Levando esperança através do medo

Levando esperança através do medo

Na tradição malgaxe, espera-se que as recém-mães permaneçam de repouso por semanas após o parto. Mas, apenas alguns dias depois do nascimento de Alfredo, Doxie tomou uma decisão que marcaria o futuro de seu filho. Apesar da exaustão e da fraqueza física, ela envolveu seu recém-nascido em seus braços e foi a um centro de triagem da Mercy Ships (Naves de Esperança) em um hospital local.

“Naquele dia, eu estava determinada”, disse ela. “Eu precisava de ajuda para o meu bebê.”

O nascimento de Alfredo foi prematuro. Com sete meses, ele chegou ao mundo em silêncio, não em um hospital, mas na casa da família. Durante a gravidez, Doxie viajou regularmente de sua aldeia rural até a cidade portuária de Toamasina para consultas pré-natais e para ficar perto de sua família. À medida que a data do parto se aproximava, ela permaneceu na cidade, na esperança de ter melhor acesso ao atendimento médico.

Nada a preparou para o que viria a seguir.

Alfredo nasceu com uma condição médica que ninguém em sua família jamais tinha visto: fissura labiopalatina bilateral, uma condição na qual o lábio superior e o palato não se fecham completamente durante o desenvolvimento no útero.

A família de Doxie hesitou em mostrá-lo a ela. Tinham medo da sua reação.

“Quando me mostraram o bebê no dia seguinte, fiquei muito surpresa”, lembra Doxie. “Eu não esperava por isso. Durante a gravidez e nos ultrassons, essa condição não havia sido detectada.”

A alegria e o medo colidiram. “Eu disse ao Senhor: ‘O que devo fazer com este bebê, já que Tu mo deste?’”, lembrou. “Eu estava com muito medo porque não conseguia amamentá-lo.”

Devido à sua condição, Alfredo tinha dificuldade para sugar e se alimentar. Doxie enfrentou uma realidade avassaladora. “Naquele momento, eu me sentia triste”, disse ela, “mas também feliz, porque eu tinha um filho.”

Na avaliação, a equipe explicou que Alfredo ainda era pequeno e frágil demais para a cirurgia. Com apenas alguns dias de vida, ele precisava de tempo para se fortalecer. Doxie recebeu uma data para um retorno futuro, quando ele ganhasse peso, junto com orientações sobre alimentação e cuidados.

Naquele momento, ninguém sabia o quão frágil Alfredo chegaria a ficar.

Não era a solução imediata que ela esperava, mas era um plano… e era esperança.

Quando não havia para onde recorrer

Doxie voltou para sua aldeia com a data do retorno e fazendo todo o possível para cuidar de seu filho. Mas alimentar Alfredo continuava difícil. Sem o equipamento adequado, sem acesso constante a leite de fórmula nem meios de mantê-lo a longo prazo, a saúde dele começou a se deteriorar.

“Tentei de tudo para conseguir comida para ele”, disse ela. “Comprei leite em pó, mas não pude pagar por muito tempo.”

Desesperada, ela o levou novamente ao hospital local da cidade. Eles ficaram lá na esperança de que ele melhorasse, mas, finalmente, a família ficou sem dinheiro.

“Dissemos ao médico que iríamos embora porque não tínhamos nenhuma solução”, contou Doxie. “Minha família sugeriu voltar para o vilarejo e esperar, acreditando que não havia mais nada a fazer.”

Essas palavras a destruíram. Alfredo ainda estava vivo. Ela não estava pronta para desistir.

Naquela noite, enquanto se preparava para sair do hospital no dia seguinte, Doxie desabou. “Eu estava muito triste. Chorei e me recusei a me preparar”, disse. E então, em meio ao desespero, algo mudou.

Ela encontrou um momento de clareza. Apoiando-se em sua fé, decidiu levar Alfredo para a Mercy Ships, acreditando que ainda poderia haver uma resposta.

Na manhã seguinte, enquanto os outros pensavam que ela estava voltando para casa, Doxie dirigiu-se ao porto onde estava atracado o navio-hospital Africa Mercy. Ela não sabia com quem falar nem o que aconteceria. Só sabia que precisava tentar.

A equipe médica reconheceu imediatamente a fragilidade de Alfredo.

“Lembro-me de que uma colega veio à minha mesa e disse: ‘Há um bebê lá fora e nem tenho certeza se ele está vivo’”, relatou Cobie Waasdorp, enfermeira voluntária dos Países Baixos. “Ele era tão pequeno.”

Victoria Pannill, enfermeira voluntária dos Estados Unidos, recorda o momento em que Alfredo chegou ao cais. “Ele foi classificado como gravemente desnutrido”, disse. “Pesava apenas 2,6 quilos com seis meses de idade. Deveria ter pesado isso ao nascer.”

A equipe o internou no programa de nutrição infantil. “Tivemos que alimentá-lo muito, muito devagar”, explicou Victoria. “Cinco mililitros a cada hora, depois dez, depois quinze, para que ele pudesse ganhar peso de forma segura.”

Cobie lembra-se de ouvir o som que lhe indicava que Alfredo ainda tinha forças. “Quando o ouvi chorar, soube que este menino era um pequeno lutador”, disse. “Aquele choro me disse que ele iria sobreviver.”

Nos primeiros dias, Alfredo começou a melhorar — pequenas mudanças que, para sua mãe, eram enormes. Doxie o via responder, mamada após mamada, hora após hora. “Não pude conter as lágrimas de alegria”, disse ela, “porque não esperava que meu filho pudesse se curar.”

O que se tornou possível

À medida que Alfredo continuava ganhando peso de forma constante, Doxie levou-o para casa para aguardar a cirurgia. A Mercy Ships forneceu apoio na alimentação e educação, e a equipe de nutrição ajudou Doxie a preparar-se para cuidar de Alfredo durante esse período.

Meses depois, quando Alfredo retornou, ele estava quase irreconhecível.

“Ele tinha um ano e pesava cerca de 7,6 quilos. Só o reconheci porque reconheci sua mãe”, disse Victoria.

Cobie sorriu ao descrevê-lo: “Bochechas rechonchudas. Sorrindo. Um bebê gordinho, como um bebê deve ser.”

Quando chegou o dia da cirurgia, Alfredo estava pronto. Para Doxie, a intervenção tinha um significado profundo.

“Deus realmente não nos abandonou”, disse ela. “Mesmo quando eu me sentia desanimada, Ele sempre esteve lá para nos consolar.”

Seus sonhos para Alfredo são simples e poderosos. “Meu desejo para ele é que cresça, estude como qualquer outra criança e tenha um futuro melhor”, disse Doxie.

E quando voltaram para casa, ela se viu contando a história repetidamente, porque as pessoas tinham dificuldade em acreditar.

“Quando chegamos, muita gente não acreditou”, disse ela. “Só depois de mostrar as fotos do antes e depois é que acreditaram.”

O cuidado, o compromisso e o acesso tornam possíveis histórias como a de Alfredo. Descubra como você pode apoiar este trabalho.

Escrito por: Henintsoa Rasolonjatovo (MDG)
Editado por: Zeddy Kosgei (KEN)
Fotos por: Joshua Chau (CAN)

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