Além do nome que lhes deram

Em Anjiro, uma aldeia rural no oeste de Madagáscar, as famílias são conhecidas por muitas coisas. Algumas são conhecidas pela agricultura, outras pelo seu artesanato, generosidade ou fé.

Mas, durante anos, a família de Haja foi conhecida por outra coisa. O seu nome ficou associado aos seus filhos.

As pessoas diziam: «Aqueles são os filhos de Haja, os que têm as pernas arqueadas.»

Para Haja, agricultor e pai, o rótulo magoava profundamente. Já o tinha ouvido vezes demais — um nome que seguia a sua família por onde quer que fossem e reduzia gerações a uma condição médica. Haja desenvolveu pernas arqueadas quando era criança e nunca recebeu tratamento. Quando teve os seus próprios filhos, alguns deles também desenvolveram pernas arqueadas. Com o tempo, a história da sua família transformou-se em algo que os outros contavam sobre eles, em vez de algo que eles próprios pudessem liderar.

«Quando ouvia as pessoas dizerem: ‘Os filhos de Haja, que têm as pernas arqueadas’, magoava-me», disse Haja. «Magoava-me como pai.»

O longo caminho para a escola

Fenitra, de quinze anos, Rolland, de oito, e Rody, de seis, tinham dificuldades em caminhar longas distâncias. As suas pernas curvavam-se para fora, fazendo com que o movimento quotidiano fosse lento e doloroso.

Ainda assim, ir à escola não era opcional.

Fenitra e Rolland, com idade suficiente para frequentar as aulas, acordavam antes do amanhecer e partiam todas as manhãs. A sua aldeia situa-se num terreno montanhoso, e o caminho para a escola tornava cada passo mais difícil com as pernas arqueadas. Tinham de percorrer caminhos rochosos e encostas íngremes durante mais de duas horas em cada sentido, muitas vezes lutando para manter o equilíbrio e, às vezes, caindo pelo caminho.

«Na escola, os miúdos gozam connosco e chamam-nos ‘perna arqueada'», diziam. «Não lhes respondemos. Simplesmente seguimos em frente.»

A mãe, Berthine, preocupava-se continuamente com os filhos.

«Estava sempre com a cabeça cheia de preocupações», disse. «Preocupava-me como seria a vida deles.» Perguntava-se se os filhos terminariam a escola, encontrariam trabalho ou se algum dia escapariam ao ferrão das piadas que ameaçavam segui-los até à idade adulta.

Havia também o peso daquilo em que a comunidade acreditava. Na sua terra, as pernas arqueadas eram por vezes explicadas como uma maldição ou um castigo.

«Magoava-me ouvir essas coisas», disse Berthine. «Tornava tudo mais pesado.»

A esperança chegou em 2024, quando o navio-hospital regressou a Madagáscar e os irmãos foram programados para uma cirurgia no navio-hospital Africa Mercy®. Inevitavelmente, os planos mudaram e as cirurgias foram adiadas. A família voltou para casa e esperou; a esperança oscilava, mas não se apagava.

«Não perdi a esperança», disse Haja. «Acreditava que seriam curados. Disse aos meus filhos: ‘Vocês vão ser operados. Só precisam de rezar e esperar’.»

Passo a passo, juntos

No ano seguinte, em 2025, a esperança voltou.

Berthine, Fenitra, Rolland e Rody regressaram a Toamasina, onde o Africa Mercy os esperava. Sabendo que não conseguiria dar conta de tudo sozinha, Berthine foi acompanhada por Fanja, a filha mais velha, e por Oliva, uma prima, que se voluntariou para ajudar durante os longos dias de cirurgia e recuperação.

«Eles são muito atenciosos e carinhosos uns com os outros», disse Maddy McArthur, fisioterapeuta voluntária da Austrália. «Vemo-los a rir, a brincar e a apoiarem-se mutuamente. Passaram por tudo juntos.»

Um a um, os rapazes e a rapariga foram submetidos a complexas cirurgias ortopédicas a bordo do navio-hospital. As suas pernas arqueadas eram o resultado de raquitismo não tratado, uma condição decorrente da desnutrição que amolece os ossos durante a infância. Sem cirurgia, as deformidades teriam piorado com o tempo.

A recuperação foi lenta. As pernas estavam engessadas e aprender a andar de novo foi doloroso. As enfermeiras e os terapeutas encorajavam-nos diariamente. Os exercícios repetiam-se dia após dia. «Eles motivavam-se uns aos outros», disse Maddy. «Quando um alcançava uma meta, os outros acreditavam que também eram capazes.»

O progresso chegou em pequenos passos.

«Era como uma criança a aprender a andar», relembrou Fanja sobre os primeiros passos de Fenitra. «Ela chorava porque doía. Mas as enfermeiras e os médicos deram-lhe força e, com o tempo, ela habituou-se.»

As crianças permaneceram em reabilitação física durante meses, praticando exercícios diários e recuperando pouco a pouco a força e a confiança. Dia após dia, a dor deu lugar à possibilidade. Então, chegou o momento em que todo o esforço finalmente valeu a pena.

«Foi tão especial vê-los caminhar todos juntos pela rampa do navio», recordou Maddy. «Vê-los sair do hospital como uma família foi lindo.»

O regresso a casa e a mudança

Quando a família finalmente regressou à sua aldeia, a receção foi muito diferente da do ano anterior.

«As pessoas ficaram boquiabertas», disse Fanja. «Ficaram radiantes por ver os miúdos chegar com as pernas direitas.»

Haja recorda-se perfeitamente desse dia. «Estávamos todos juntos e dançámos de alegria», disse. «Celebrámos até ao amanhecer.»

O nome que outrora perseguia a sua família começou a perder o seu poder sobre eles.

«Antes, magoava-me o que as pessoas diziam», desabafou Haja. «But quando os meus filhos voltaram curados, soube que esse nome iria desaparecer.»

Para Berthine, o alívio foi profundo. «Antes, preocupava-me dia e noite», disse. «Agora sinto-me tranquila. A minha mente está em paz.»

Fenitra, Rolland e Rody agora caminham sem dor.

«Antes, não conseguíamos ir muito longe», disseram. «Agora conseguimos ir bem para a escola.»

A sua família ainda é conhecida na aldeia. Mas a história que as pessoas contam mudou.

O acesso a cuidados de saúde pode transformar o futuro de uma família. Com o seu apoio, a Mercy Ships (Navios da Esperança) pode continuar a oferecer cirurgias gratuitas e a ajudar mais famílias a dar um passo corajoso em direção a novos capítulos. Descubra como se pode envolver.

Escrito por: Zeddy Kosgei (KEN)

Fotografias por: Joshua Chau (CAN)

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