Harimalala tinha apenas 12 anos quando a sua vida parou inesperadamente. A única rapariga entre cinco irmãos, era uma estudante em Madagáscar com sonhos e esperança de alcançar o seu maior potencial.
Agora, com 24 anos, recorda: “Quando ainda estudava, era muito saudável. Ainda não tinha esta condição”.
O que começou como uma simples dor de garganta rapidamente se transformou num crescimento potencialmente fatal, condenando Harimalala a uma vida de dor e vergonha durante os 12 anos seguintes.
“Tomei medicamentos, mas… continuou a crescer ainda mais. Até fui a um curandeiro tradicional, mas continuava a crescer”, contou.

O peso de um bócio
Com o tempo, o crescimento tornou-se impossível de ignorar. Cheia de vergonha, Harimalala abandonou a escola e passou a usar um lenço ao pescoço. A sua condição afetava gravemente o seu bem-estar físico, emocional e social.
“Não consigo ir buscar água nem carregar coisas pesadas. Não consigo agachar-me nem correr”, partilhou antes da cirurgia.
O Dr. AJ Collins, que lidera o programa de cirurgia da tiroide da Mercy Ships há 17 anos, seria o responsável pela operação de Harimalala. Descreveu o caso como “um bócio multinodular típico mas de grandes dimensões — o tipo mais comum de patologia da tiroide em todo o mundo”.
“Tende a comprimir as vias respiratórias, por isso torna-se difícil respirar, falar ou fazer exercício. Também afeta a deglutição. Esses problemas agravam-se até atingirem um ponto crítico — o que, no caso dela, esteve muito perto.”
Mas os desafios de Harimalala iam para além dos sintomas físicos: “Tenho vergonha das pessoas e não me atrevo a ir à igreja porque todos olham para mim. Falam, comentam, dizem que tenho uma coisa enorme no pescoço.”
À medida que aceitava a sua nova realidade, percebia que os outros estavam a seguir com as suas vidas. Enquanto os seus colegas já formavam família, Harimalala sentia que ninguém a iria querer com aquela condição.
“Não consigo imaginar como será ver os jovens à tua volta a casar-se, ter filhos, viver…”, disse o Dr. Collins com empatia. “Ela sentia, no fundo, que isso nunca lhe aconteceria.”
Harimalala temia que a sua condição lhe tirasse a vida, mas uma cirurgia acessível estava fora do seu alcance. Cerca de 93% da África Subsariana não tem acesso a cuidados cirúrgicos seguros, acessíveis e atempados.
“As pessoas acabam por esperar muitos anos por este tipo de cirurgia… muitas vezes, não há qualquer esperança real de conseguir fazer uma operação como esta no seu próprio país”, afirmou o Dr. Collins.
No entanto, Harimalala ouvira falar da Mercy Ships há 10 anos — e aguardava ansiosamente o regresso do navio hospital a Madagáscar.
Mercy Ships dá esperança a Harimalala

Quando os voluntários do navio hospital Africa Mercy® conheceram Harimalala, souberam logo que não podiam deixá-la regressar a casa sem ser operada.
“Recebi alguns e-mails da equipa médica a dizer que o estreitamento das vias respiratórias era crítico e que ela tinha muita dificuldade em respirar”, contou o Dr. Collins. “Ela ficou no Centro Esperança durante vários meses, com um tratamento que ajudasse a reduzir um pouco o bócio antes da cirurgia.”
O primeiro encontro de Harimalala com a supervisora clínica pré-operatória australiana da Mercy Ships, Maddy Hartung, deixou uma impressão forte.
“Ela foi a sua maior defensora desde o início”, disse Maddy. “Sabia que podíamos ser a sua única esperança de cirurgia — e fez tudo o que podia para ter essa oportunidade.”
A coragem de Harimalala inspirou a equipa médica voluntária a juntar-se a ela em oração enquanto esperava o tão esperado dia da operação.
Uma cirurgia que mudou a sua vida

No dia da cirurgia, a equipa médica acompanhou Harimalala até à sala de operações depois de orarem com ela. Depois, esperaram na entrada do bloco cirúrgico, refletindo sobre o seu percurso.
“Estou tão grata por ela. O nosso Deus é fiel. Fizemos toda esta jornada juntas e agora tudo se encaixa”, disse Cobie Waasdorp, líder da equipa pré-operatória dos Países Baixos.
A equipa cirúrgica era composta pelo Dr. Collins e dois assistentes — incluindo um participante do programa de Educação, Defesa e Formação (ETA) da Mercy Ships. Havia também duas enfermeiras e três anestesistas.
“É muito trabalhoso, não é? Mas o trabalho em equipa torna os casos difíceis mais geríveis”, disse o Dr. Collins. “Bócios tão grandes como este são muito vasculares, o que significa que sangram bastante — mas estávamos preparados.”
Após quatro horas de cirurgia, Harimalala foi finalmente libertada do bócio de 1,35 kg.

Novos começos para um futuro melhor
Após a cirurgia bem-sucedida, os voluntários despediram-se de Harimalala com cartas escritas por cada um deles.
Quanto a Harimalala, já não sentia vergonha do seu aspeto nem do que os outros pudessem pensar.
“Gosto muito de colares, mas com o bócio não podia usá-los — agora já posso”, disse, com um sorriso radiante. “Sinto que entrei numa nova vida, porque na anterior não sabia se ia viver ou morrer.”
Graças à Mercy Ships, a sua vida está agora cheia de novidades — e de esperança para o futuro.
“Agora já posso casar e ter filhos porque aquele crescimento desapareceu”, disse.
O Dr. Collins também está otimista: “Não vejo razão para que isso não venha a acontecer para ela.” — Boa sorte, Harimalala!
